«Quando entreaberto o caminho
que me leva ao berço a de «quem me dera
embalado
O lábio sequioso pedindo um beijo e mais outro de
sede Nesse berço vaporoso,
Purpurino duma chama de amor que clama pelos pais pelas Nuvens do céu azulado...
Criança – alvorecer – de um nascer desejado… o bem mais precioso Onde os meus olhos repouso
Risonho dum descanso merecido de quem morreu e outra
vez nascido Já de tanto olhar cansado!
Dia que uma Mãe desejou um filho ou filha
abençoados dando-lhes Deus esses seres amados
Uma mãe que tem no ventre um dom, um amor quente… De tanto olhar à procura
Em lindo amor essa candura que é ter dentro de si… De uma paz, de uma ventura
Sonho Talvez, mas creio que não o espírito
torna-se carne e vive Dessas venturas sinceras,
Sonhou num universo às avessas onde feminino com masculino
se mistura Se as pode haver sem mistura.
Riso cristalino, que faz nascer no vazio formas «mimesicais» e outros objectos musicais
Quando um som puro cristalino só e abandonado chama pelo pai cansado Mas há, sem
dúvida: creio
Amor, um que veio do nada… do universo sem fim que
deu a Deus Neste desejo entranhável
Róseo bambino, um instrumento musical sem rosto… mas… Há-de haver um rosto, Um seio
De amor e gozo inefável de beleza interior inigualável Donde mesmo este amor veio!
Irmão gémeo desse seio nasce outro tempo medeio que
divide o dia em noite e a noite em dia
Da graça dessas crianças nascem esses risos
cristalinos Este amor que a vós me prende,
E da ternura que sinto imagino cavalos
brancos que desenho imaginando com Nuvens do
céu azulado!
Candura, Num momento sofrido no qual sangro ferido E a vós, lâmpadas que acende
Momento cruciante e diligente que Deus apaga e acende
Solenemente Depois do Sol apagado
De amargura para acender no novo dia o próprio Deus de Quem... de Quem tudo depende!»2
Nos torna assim homens crianças, seres assim tão
sabedores que ensinam a seus pais todos os dias
Em dia que parece dia mas é noite e noite que
parece noite mas em dia
A noite que refresca a água que se bebe que não
passa de uma ilusão que mata a sede
Dum destino, traçado pela sorte, pelas encruzilhadas,
pelo caminho que se revelou…
Eu penso então Senhor como sou abençoado, e agradeço
todas as noites prostrado…
Então, Senhor, assim deitado penso neste universo que criaste
tu que foste o primeiro de todos
Eu penso como te sentiste assim tão sozinho,
abandonado no vazio, sem Pai, Sem Mãe, nada…
E cismo: como é tão grande o teu amor? De onde vem?
Quem to entregou? Pai…
Qual a resposta… talvez seja… porque te lembraste
de quando foste criança?
Estranha razão essa que ninguém entende mas que eu
imagino…
Porque me recordo de todo o sofrimento de todos nós e
o amor não se vende, não se compra…
Abismo no coração de muitos que não se encontra
Tremedal da morte que o leva
Vida tão sofrida por que o esquece…
Mesquinha?... E sem sentido para quem ama
Não seria essa
a condição humana…
Melhor sem ele, céu ou inferno que cura…
Ilusões, Inocente, culpado, castigo e tortura?
Sem culpas, e assim depurado…
Sem paixões, descontroladas que não tem explicação
aparente
Que eu esteja assim tão doente para ver o amor
deste prisma?
Fosse eternamente Avô, Pai, Mãe, Irmão mais velho e Irmão
mais novo, foste colega de escola
Criancinha? …(…)»1 …Não… nunca foste criancinha mas sim um
Homem Grande Adorável Homem de Grande e Bom Muito Bom Coração…
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1 Casa - Escola de O. de Azeméis 2
João de Deus, in 'Campo de Flores'
Fevereiro de 1937 - AGOSTINHO GOMES

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