sábado, 31 de janeiro de 2015

SER CAMIONISTA DE LONGO CURSO


A MÁQUINA & O HOMEM             A VIAGEM                 O HOMEM & A MÁQUINA

  
Da tua raça a força nobre, o espírito forte, a temperança, sendo tu o meu abrigo… Contigo vou por essa estrada
Tua vida é a minha por esse caminho que se estende por entre curvas e subidas… Tu que és meu companheiro
Força que empregamos nessa viagem que diante dos nossos olhos se desenrola… Nessa estrada abandonada
Alimento para mim e para ti escola, regressando tu á infância, breve memória…  Ligando o ponto de origem
Por essa linha de alcatrão na qual rolamos sem parar nesse desejo de chegarmos A esse destino certeiro
Essa terra abençoada onde procuramos sustento pelo trabalho alcançado Na nossa busca e vertigem
Estrada que percorremos onde se escondem os nossos medos que afastamos… As horas passam devagar
Nossa prece a São Cristóvão rezamos pedindo essa hora serena porto seguro viagem breve Contando eu os minutos
Vida que se desenrola na combustão do teu motor e no meu coração que bate forte… As rotações a marcar
Da vida que se desprende antes de adormeceres novamente no descanso do nosso lar… O motor a trabalhar
Robustez de coração, uma e outra vez, bate bate coração, sobem cilindros e Pistões explodindo e bielas
Sustento meu: teu combustível que não paras de sorver e mais uma vez aquelas Faíscas, combustões e velas
Para que não pares nunca nunca nesses caminhos da sorte onde impera essa morte Mudanças e íngremes descidas
A tua vida é a minha e os meus braços são os teus, por esses caminhos nossos, distantes…  E do teu rugir a tua força
Família       que somos, comes comigo à mesa, partilhando o alimento esse sustento De que dependem muitas vidas
Constante o teu motor nesse trabalhar incansável, esse alcatrão, essa força admirável… Caminhas comigo seguro
És a minha profissão, és meu passado e futuro és meu ganha-pão és meu porto seguro Sentindo-te eu pelo volante
Máquina de força verdadeira e um pouco à minha maneira chamo-te eu companheiro  E o teu trabalhar constante
Poder que tu não revelas pois dentro de ti está guardado o teu coração motor e bielas que Queima esse carburante
Andante que tu és e eu sou e por esses caminhos vou alimentando-me de ti com a força Que nos circula nas veias
Que faz de ti as minhas pernas com que percorro o mundo e assim És a minha vida o meu sangue
Rola mais uma vez por mim abraçando essa estrada nessa escuridão de breu És a minha força andante
Por ter a sorte que Deus me deu de te ter por companheiro a ti no mundo inteiro Pois trabalhamos a meias
Essa é a nossa condição, eu conduzindo pela estrada, eu homem e tu camião… Tu que rolas pela estrada fora
Estrada tal como as veias liga-me ao teu coração e assim serpenteando rolando mundo fora És a minha condição
Fora de ti apenas homem sou, mas dentro de ti sou máquina, és de uma condição fantástica De TIR seres camião
Vou hoje novamente para fora, beijo a família que dorme, e deixo a minha casa em paz… E eu ser o teu condutor
Hoje e mais uma vez, faz com que acredite nesse Deus que homens e máquinas fez… Levando-te eu a bom porto
Mais e mais uma vez… Procuramos esses abrigos que pelo caminho nos escondem… Onde descansas e eu também
Uma noite e outra mais, junto das bombas gasolineiras, paragens certeiras Dormindo mais uma vez nessa estrada
Vez à vez e depois mais «estrada» rolando atento depois da bomba passada Que para alem de alimento é pousada
Embora esteja eu sozinho, contigo na cabine estou, partilhando meus pensamentos vou… E assim nós percorremos
Para outros também alimentar países e mais países que qualquer um desejaria visitar… Quilómetros mil fazemos
Essa nossa caminhada mil estradas percorremos e depois… depois nada, voltamos atrás Para chegarmos ao destino
Terra essa que não sabia aprende-se mais um dia e logo passa a palavra… Voltando depois pelo mesmo caminho
Distante parece a estrada quando não se conhece caminho pois toda a estrada calcamos Que conhecemos de cor
Mas sempre aparecem surpresas, às vezes poucas certezas, umas para melhor ou pior… Tu máquina e eu dizendo
Trago comigo esse mapa que muda com a FÉ, abre-se um caminho e outro digo: - Vai em frente ou para a direita
No momento em que a estrada desfeita se faz novamente ou se volta a traz… Pela esquerda, passagem estreita
Pensamento poderoso que constrói o destino fazendo esquecer caminho que se desfaz Pois tu nasceste ceguinho
Esse cego que também sou, pedindo-te para que de noite ilumines o caminho por onde vou… Apesar do teu olhar
Desejo que vejas mais forte nesses caminhos da sorte em que o teu olhar Que brilha nesse caminho escuro
De noites cerradas chuvosas de águas torrenciais em que as estradas alagam e tu Dando luz a esse breu
Ser camionista Eu  e tu um TIR camião… pois é essa a condição com que nos apresentamos Pois sendo tu cego e eu
Regresso contigo dessas viagens para ligar esses países com a luz dos teus faróis Para essas estradas iluminar
E sempre que volto de novo rezo, rezo uma vez a Deus dizendo: - Obrigado meu senhor… E se morrermos um dia
Máquina e eu homem  de acidente sem culpa  ou culpa de outros por fim… Nessa estrada acidentada
Para que após esta vida passada não termine apenas assim… Só espero ver-te novamente
Te(ndo-te) por companheiro Nesse paraíso se tivermos sorte
Ver para onde se vai depois do fim (?) Para onde máquinas e homens vão
Novamente no fim desse caminho inverso quando todos renascemos (…) Depois da morte (…) (in)-verso!!



Miguel Silvestre

Valinhos - Alte 15/09/2013

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