sábado, 31 de janeiro de 2015

«(…) SER POETA (…)» É: I


A FELICIDADE             SER AMANTE DAS PALAVRAS                     A DOR EM MIM


«(…) É   ter o mundo nas mãos e na boca onde Sinto essas palavras vivas… vividas…
Amar-te, assim intensamente chorando lágrimas Que sangram no meu peito aberto deserto
Assim, ter-te longe e tão perto, procurando no peito Abrindo caminho entre as minhas chagas
Perdidamente… nessas fráguas navegando em Que lavo com minhas lágrimas e mágoas
É conter todo esse meu sofrimento num só grito Nesse pranto em carne viva que sangra
Seres do outro mundo que me visitam aflitos e Que me fazem gritar por amor e de dor
Alma pura essa que me salvará da tortura invernal na qual Vivendo já no inferno que queima
E passando outras palavras feitas que amo fazendo-me rir E assim sangro por dentro no fundo
Sangue meu esse derramado pelo mundo e Queimado por esse tormento imundo
E vivido e falado por outras bocas julgado e condenado Que sentimento esse assim tão vil…
Vida que às vezes é madrasta e que de palavras apenas não basta Que me mata bem devagar
Em palavras mil desfeito as quais não deixo de amar e Que me faz morrer em mil fragmentos
Mim(os) esses em que me perco tão etéreo e liberto Para depois me ressuscitar mais mil…
E são essas as palavras que amo as que queimam e Quem ama com essas palavras inflamadas
Dizê-lo assim abertamente custa… confessar… Que pela pena do poeta e mãos fundas
Cantando e chorando ao mesmo tempo assusta Escavam frases e prosas profundas rasgadas
A dizer que não lhes custa mas usando dessa mesma tinta… Com essa tinta de sangue fecunda
Toda a verdade aparece nua pela caneta Que escorre pelas minhas mãos sangradas de poeta
A todos pedindo ajuda… estendendo as suas mãos Trémulas de sofrimento tal como rosas
Gente! (…) que não se importa nem ama glosas Nas quais lavro esses versos vividos e prosas
É assim o destino do poeta parir versos na dor… Sendo eles os meus filhos queridos
Ter as palavras na boca e assim fazer amor Rompendo as folhas alvas nascendo nervosas
De palavras mil desejos e versos absortos Escrevo essas ávidas palavras negras e desgostos
Mil beijos roubados amantinos perdidos nesses doces mimos Com sede de vida e sofrimento
Desejos desflorados que confesso e não regresso Bebendo elas esse meu sangue e morrendo
O mesmo sangue que me corre nas veias Tornando-se assim eternas e belas como teias…
Esplendor dessas quentes palavras que amo Palavras secas que estão vivas e não mortas
E as quais alimento com o meu sangue engravidando-as Nesse poema de esplendor absortas
Não desejando vê-las mais uma vez perenes… Palavras que o poeta sabe de cor por amor…
Saber o sabor dessas palavras bruxuleantes que Por serem parte de si surgindo na alma
Sequer brilho algum se lhes conhece mas sim Nascendo P’lo ventre tinteo da caneta
Que as trás ao mundo pela mão desse poeta Lavradas pela sua amada predilecta
Se materializam nesse «in scriptorium» Que é o útero muselino da sua criação
Deseja! Poeta e abre a tua alma ao mundo Nestes momentos sofridos P’los sentidos
É assim pelas palavras vividos pelas suas mãos paridos De mil versos ter na sua boca fellácia
Ter assim dentro do seu ser tal falácia ilusória e Saboreando-lhes os diversos sabores
dentro da alma ferrina essa artística mina…  Fecundando-as de sentimento e amores
Dentro do ser desse poeta no seu âmago mais profundo Nesse acto de amor vivido, atento…
Um segundo que condensa a eternidade o mundo Em que o poeta escreve d’amor e por amor
Astro Rei estro esse de esplendor partilhado Com a sua amada e companheira vivendo…
Que desejando pelo próprio desejo e morrendo Fazendo nascer palavras filhas do mundo
Flameja, saltitante essa chama que deseja nascendo Nesse berço da criação fecundo
É ter nas mãos fundas do poeta o mundo Que é a mente do poeta ideia funda e dor
Ter e saber de cor o sabor dessas palavras Que escreve em aflição e justa causa com ardor
Garras e ganas com que escreve os sentimentos Soltando gritos e escritos sentidos, sofridos
E urros, batalhas, guerras e murros… escrevendo Versos vividos… sofridos… paridos…
Asas que estende abertas protegendo a sua prole perdida Em orgásmicas palavras contidos
De parir versos assim tão facilmente sofridos Em lânguidos ais… suspiros… e gemidos…
Condor! (…)»1  que voa longe em voos sofridos Dando asas à imaginação P’los sentidos…      
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1 (Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)
Miguel Silvestre

Valinhos - Alte 15/02/2013

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