sábado, 31 de janeiro de 2015

RESTOS DE NADA... - [Rico e Pobre, Bondade e Esperança]



«(…) O concurso “Pela Arte, Contra a Pobreza”, que visou despertar as consciências relativamente à realidade da pobreza no Algarve e fortalecer a convicção de que é possível e necessário superá-la, foi concebido no âmbito do projecto Por um Algarve Sem Pobreza, promovido pela Associação In Loco, em parceria com a Comunidade Intermunicipal do Algarve – AMAL e a REAPN, e apoiado pelo Programa Nacional do Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social. (…)»


Tu... Que dormes ao relento na rua, que tens por cama a calçada, Tu que vês o sofrimento
Que choras lágrimas de sangue, Tu que te embebedas de dor... que choras de tormento
Amas os outros como tu, que são os teus companheiros, tu que procuras a paz... e tudo dás.
A tua cama é um cartão, os jornais as tuas roupas, tu que és solidão, Tu que procuras a paz
Luxúria, não a conheces, o amor para ti é uma quimera, tu que vais alimentando o teu irmão...
Comprando comida de mão estendida, confiando na sorte, Tu que não vives na ilusão,
O dinheiro que te falta, tu que convives com as escórias que conheces... que conheces o amor,
Amor que te é negado, ora doce, ora salgado, amor que desejas... que pagas com ele a dor,
À tua beira se deitam, ratos pulgas, percevejos... sobejos... que comes da boca dos outros...
Hora… que nunca mais chega dessa morte desejada, julgam-te louco Tu que alimentas os loucos,
Tu... que também és tormento, e nunca mais chega o momento... Tu que choras de sofrimento...
Que vestes roupas rasgadas, que não conheces riqueza... Tu para quem a vida é pobreza
Vendeste a tua alma a Deus, tu que procuras os teus... e tens sempre algo para partilhar...
O alimento que te falta, mas tu escutas quem te pede... Tu que não te negas a alimentar,
Teu sonho realizou-se, és Cristo que vive na rua... Tu que tens uma boca faminta de amor...
Amor que tu desejas, e da esperança que tens... Tu que te embebedas de dor
A vida não te sorriu, as lágrimas correm-te a fio... Tu que dás mais do que recebes
Asmodeus… que te tentou... mas não te deixastes enganar... Tu que negas esse demónio...
E com ele não queres acordar... Tu que rezas pela alma dos outros... E rezas... E rezas...
Ficastes mal no caminho que fizeste... Tu que a verdade e a justiça prezas...
Sozinho e abandonado... este é afinal o teu fado... Tu que a oração conheces...
Agora… sentes-te só... a tua figura mete dó... e estás sozinho... Estás sozinho nesta luta
Tu... que na rua estás em casa... e tua cama é um cartão... sozinho em casa sofrendo,
Que clamas para ti fedendo, comendo comida de cão... e esperando pela hora...
Vendes o pouco que tens, dás esperança aos outros... E agora o teu alimento
A comida que te deram... juntas-lhe um sabor salgado de lágrimas, e ofereces a quem tem fome...
Tua comida partilhas, as tuas poucas migalhas... Tu que às vezes nada comes
Generosidade, a tua virtude, comes hoje se calhar... mas não te importas de dar...
A quem te pede... tu que para ti o amor fede, e dás... Tu que partilhas a tua paz
Mammon, que te tentou... mas que soubeste recusar... como o pedinte da rua,
Por amor tu o salvaste... deste-lhe abrigo e esperança... ele que pela cidade nua deambulava,
Dinheiro... não te diz nada... ele que é como tu... Tu que o agasalhas com tuas mantas...
Que não tens mesa, nem roupa, que tens Deus por companhia... Tu que negas Mammon,
Guardas o teu maior tesoiro... Um coração puro de oiro... que não te vendes por dinheiro
Gananciosamente to pediram... mas não to tiram... Tu que não guardas gananciosamente
No teu peito o deleite, dessa semente de amor... que semeias com paixão,
Teu sangue na rua escorre, tu que amarras o desejo... que te alimentas de amor
Altar o vão de escada nessa vida emaranhada com a qual comes à mesa Combatendo a avareza...
À qual tu negas cantando... outras vezes também chorando... Tu que deitas sobre o chão...
Avareza... não conheces... tu que outro destino mereces... pois dás Tudo o que possuis
Tu... com tuas lágrimas de sangue, mordes os lábios cantando... Tu que gritas por dentro aflito,
Que soltas esse teu grito da tua alma atormentada... sentindo o sofrimento dos outros
Abominas a injustiça, tu que não conheces preguiça Tu... que para quem a vida é sofrimento,
A rua tu bem a conheces... E quando choras aqueces... Tu que choras sempre sentindo,
Pobreza que fome te dá... É o teu hino de raiva... E choras... o sofrimento alheio,
E os outros, aos quais eles chamam loucos, esses... de quem passa por ti pedindo...
Nunca te dão os bons dias... são assim todos os dias... Tu que olhas tantas vezes,
Choras... pois não os ignoras... eles que não te vêem às vezes... para as crianças da rua
Tu... és herói do tormento... Tua vida sofrimento... Junto com os que percorrem as vielas,
Que são teus irmãos de luta de esperanças perdidas... esfarrapadas e seminuas,
Te dão força esses tormentos pois se não te matam és forte Tu que colhes os frutos que semeias
Empanturras-te nessa orgia... de fome... bebida... e alegria... Tu que conheces o mundo podre,
Nessa bebedeira de dor... que faz esquecer por momentos... o que fede de tanta ganância,
Gula que para ti é dor... e riqueza cagança... comes a merda dos outros que rebenta de opulência,
Desenfreada, dormente... é essa a tua aparência... Mas ao mesmo tempo esmaga
Quem de ti escarneceu... Que tira o brilho ao pecador... e esmaga os outros na sua pobreza,
Foi essa a tua lição... que lhes destes a aprender...  que nada comem famintos...
Aprendida às tuas custas... dos que têm para comer... Vivendo dias de infelicidade...
Com o teu sofrimento aprendeste, essa grande lição... Tu que viste por ti a verdade
Belzebu... esse ladrão... rouba as almas por vaidade... e olhas os cães na rua,
Que são também os teus irmãos... eles que comem restos... e com eles partilhas a fome,
Dás a tua fome que é alimento... Mostras o teu sofrimento... que passas para dar aos outros
Aos infiéis dás virtude... dás amor e dás carinho... esses que menos do que tu têm...
Teus companheiros de infortúnio... que têm menos do que tu... Tu que um dia és Rei
Cães serão os teus súbditos... Tu que dás essas migalhas... e no outro dia sem comer...
Carne... a tua partilhas... tu que rebentas de vida... Tu que ofereces rosas
Frescas da tua guarida... São poemas teus sentimentos... e prosas e versos e glosas,
Cães que te ouvem sedentos... de poemas, estórias e prosas... E quando a vida te atinge,
Que pareces não poderes mais, vais à campa de teus pais... Que viveram com os seus revezes...
Comem os vermes da terra, nesta e noutras guerras... Tu cuja sorte não conheces,
Três vezes ao dia rezas... e essa é a tua sorte... e partilhas...
Vezes sem conta, o amor que Deus te deu... Tu que olhas as oliveiras e a flor das amendoeiras
Ao lembrares-te como ele morreu... Morreu de amor na cruz... e lembras-te do amor eterno,
Dia... após dia chorando, nesse pranto de sua mãe... Já que te serve de aconchego...
Tu... que choraste também e engoles essas farpas de amor... O qual tu juraste solene,
Que te fazia esquecer a dor, dor que partilhas na rua, o teu calvário... no qual partilhas alegrias,
Te enches de álcool dormente, beijando as pedras da calçada, semeando vómitos e tristezas
Rendes-te a esse torpor... Tu que os mandas F. mais o dinheiro e outras pobrezas
Ao fim de contas não passas de um morto qualquer, tu que rezas todas as horas... mas não choras.
Ócio... não o conheces... Quem és tu... isso esqueces... pois Tu que nunca olhas às horas,
E o tempo passa por ti... lentamente vais morrendo... pois o tempo tem suas armadilhas...
À merda mandas os outros, que passam por ti e não ligam... Parece-me ver ao longe agora
Preguiça... essa que negaste... tu que no fim desejaste... o fim desse desejo ardente...
Que te deixou assim tão dormente quando te recusas a beber... Tu que nunca ficas doente,
É esse o teu castigo… de teres de viver a vida... sofrida... pois dás aos outros a saúde...
O teu bem mais precioso... tu que engoles fogo e fome... Tu que a paz eterna procuras
Credo esse que é o teu fim... tu que desejas a morte... todos os dias... e às vezes desesperado
Que aprendes-te a chamar... filhos aos cães da rua... desejas esquecer o passado,
Aprendeste esse fado de seres louco sem o ser e depois fazes por esquecer todo o sofrimento,
Com que te alimentas, e começas a caminhar, nessa rua sem sentido, e a olhar sempre em frente
Belphegor... tu avistas-te, ele que te prometia riquezas... com a vida lá ao fim...
Tu... que esse oiro recusaste, essa tentação sem fim... de uma linha que não termina,
Que se disfarça de vida, que te sufoca de raiva... pois quis Deus que fosse assim...
Gastas dessa amargura... que sentes no coração... Tu que rezas ao Pai,
Fortunas... dizes que não... E sentes-te capaz de vender a alma... a pedir perdão pelas faltas...
Em momentos de insanidade... perdes o rumo e o sentir... Tu que gritas em desespero
Sapatos indicam-te o caminho, as tuas sandálias de Cristo... e dás o melhor de ti...
De fome, de carne e de sangue... com o teu corpo alimentas... Pensando sempre nos outros...
Pele crua tua tu ofereces... a quem te deseja esfolar... Chorando nesse altar de lágrimas,
De sangue a arder e luz... espias os nossos pecados... desse Cristo crucificado,
Bichos de raiva e maus-olhados... nessa entrega sagrada... do que morreu pelo pecado...
Raros são os que o fizeram... Esses Cristos abençoados, sangrando... desse mundo sofrido,
E raivoso, que engole prantos e lágrimas... Dessas mães cálidas... que recebe com sangue santo,
Exóticos prantos de dor... de quem filhos deu à luz por amor pagando-lhe tudo o que lhe é devido.
E ora chorando... ora sorrindo... rogaram pragas de amor... Tu que percorres os caminhos
Vestes esses trapos nobres, passando encruzilhadas, nessas ruas caladas, e não assobias à noite
Fatos rotos são o que vestes, és um espantalho na rua... que afastas de ti os demónios,
Mundanos... vampirinos e inumanos... de ódios... mas tu... e que ainda tens esperança...
Viajando por esses caminhos, em ruas entrelaçadas... Tu que vives na lembrança
Na companhia de Deus... no amor puro e doce... dos bons momentos passados,
Companhia essa Celeste... que nessa cruz fatal... misturados com sangue e lágrimas,
De outros momentos sofridos... são chagas de outros momentos torturados
Lúcifer... tu renegaste... puxando-o para longe de ti... em que o sofrimento era tanto,
Tu... que morrias assim. Afundado nesses copos... Tu que mergulhado na bebida,
Que sorvias em tragos largos e assim afogavas essas recordações
Invejas tu não tiveste... desse mundo de ilusões... que te destruíam aos poucos...
Os outros que te julgavam louco... fedendo a raiva... Tu que comeste com os loucos,
Outros mais sãos e puros... que sabem dizer não... que são mais sãos do que os outros,
Ainda assim tu te riste desses espantalhos da vaidade... que se julgam superiores,
Mais do que os outros... mas impotentes... julgando apressadamente,
Ricos em mentira e inveja... julgando que os outros não são gente...
Que deslizam pela rua nessa cidade crua... olhando-te de soslaio... Tu que deitas fora o ódio
Tu… que os perdoas no fim... tu que os olhas cara a cara... e perdoas sempre a todos...
Rezando farpas de amor... tu que lhes bebes a dor... Tu que és homem de bons modos
A merda dos outros comes... alimentando-te dos restos... e conheces a verdade,
Leviatã é maldade... tu que também o renegaste... Pois sabes que a vida é breve,
Que derrete como a neve... e ódios e rancores são passageiros,
Tudo deixas-te abandonando esses pecados mortais, pardieiros... que enterras lá no fundo
Te lembras no final de teus Pais... E com a mentira que odeias...
Dê... lá por onde der... vais ao fundo e lá procuras... ao fundo da tua alma,
Que já brilha lá no Céu... Que tu vês quando é noite... E que às vezes também escurece
Te dá essa esperança bem-vinda quando o desespero assoma... mas depois brilha e aquece
Limpas as lágrimas da cara... retirando esse lodo... recuperando o amor que deste
A todos os que sofriam... que tinham frio de amor... que te desassossega frequentemente,
Papel que gostas de representar... nesse sacrifício de amor... fazendo esquecer a dor
Perfumado tu vais agora... com o teu odor natural... Dor que é passageira,
E faz-te chorar lágrimas de sangue... mas que tens por companheira
Colorido… o teu desejo por essa dor viajante... que amas nos momentos de paixão...
Que te dá cardos por filhos, e cães por teus irmãos... Amor ao qual tu te entregas,
Te roças, te esfregas e que sentes... fazendo filhos de sonhos
Carregas os teus rebentos da tua companheira rua... e dos sonhos os teus herdeiros
De tesoiros de recortes, dos jornais que amealhas-te... dando de ti o melhor...
Oiro... esse ao que tu te limpas... Matando a fome a quem te pede,
Tu... que para quem o amor fede... dando comida a quem precisa,
Que só merda tens para dar de herança... Mas dás alento ao desanimado,
Mentes para afastar o pecado... dessa coragem a quem fraqueja,
Incomodado com a mentira dos outros, dando saúde a quem necessita
Quando descobres a mentira, dessa fome que sentes... e ainda tempo sobeja
Te pedem os outros desgraçados, em mentiras enredados para viveres a tua vida
Pedem para que lhes dês o teu sangue e suor e dor... e trabalhares arduamente
Dinheiro que tens de amealhar... ganhando o pão do dia-a-dia
E dás o teu corpo a esses que se venderam desgraçados... que te é pago à hora...
Respondes com um riso à morte, sorrindo-lhe ironicamente... Hora que tarda em chegar...
Que tu desejas ardentemente, o teu sofrimento dormente... Tu que descarregas no mar,
Nada mais tens para oferecer... a não ser esse sentimento que se acumula... a dor...
Tens espalhada no rosto, nesse teu olhar que mendiga... Tu que conheces o amor…
Tu... que és água que mata o pecado... que dá a vida a quem pede... de seres água pura e sede,
Que enches de vida os outros, dando-lhes de beber o amor... Sede que matas a quem pede,
Fechas dentro de ti a dor com que alimentas a esperança... e dás a quem... e mais fome de ti tem.
As tuas amarguras e dissabores... que colhes da cidade nua... Tu que és Cristo na rua,
Tuas esperanças perdes-te... as palavras são enganos... a quem sofre e te procura...
Casas com os caixotes de lixo... que te mordem a razão... e fechas-te Na oração pedindo ajuda
Em momentos de morte que desejas, e esse lixo que sobeja... comes em desespero de causa,
Grades que são os teus sentimentos que te prendem dentro de ti... cuja boca fica muda...
Com a fome que te inunda... tu que dás o melhor de ti... Tu que dás ao bom pedinte,
Medo da morte que alimentas... fazendo-lhe esquecer a saudade...e sacias com verdade...
De fome que atormenta... Tu és maré cheia e vazia... Um farol na escuridão... Tu que és luz e guia,
Seres o fim da ilusão... És aquela luz que brilha... Tu que és estrela e saudade...
Roubado aos poucos, infelicidade... correm-te as lágrimas a fio... Tu que dás a vista aos cegos...
Tu que és como um rio que escorre... Tu que nunca morres... Tu que dás o teu coração aos fracos
Que se aconchegam em sacos... cheios de dor e loucura... prenhe de amor e verdade...
Nunca sentes saudade... mas morres... tu que vives no vento... Tu que salvas pela Fé,
Dormes no beco frio e escuro... pedindo a quem te acuda a outros a quem te pede ajuda...
Descansado no cemitério... onde repousam os loucos... Mas que velas também pelos outros
Pois és vida que não cessa... tu que escutas a promessa... desse Deus... cuja palavra é muda...
Temes pela vida que não é tua, tu que procuraste no encalço... Tu que caminhas descalço,
Tudo perdeste dos outros, Tu que para quem a vida são espinhos, pois deste as tuas sandálias
Perder… para poderes caminhar erguido... para dares carinho... ao pobre que viste na rua…
Tu que vives uma vida nua... alimentado por Cristo... E sonhas... ele que te pedia migalhas…
Que choras sobre essa coroa de espinhos... desse homem ao qual Deste-lhe o pão do teu corpo,
Deitas fora o que é bom... e sonhas com ele agora... alimentaste-o com o teu sangue,
As chagas tu lhas lambeste... com esse sangue que lhe deste... dando-lhe a vida eterna...
Cartas essas que tu escreves... nesses restos de jornal... Em paga do sofrimento vivido...
Na tua cidade fatal... Tu que és desespero... Tu que és sofrimento... Tu que és esperança e alento
Mesa na qual partilhas, merda por sobremesa, Tu que a comes... para aquele que caminha na rua
Da merda não pisar... Tu que a expões no altar... com os teus cabelos ao vento dançando,
Sala essa que é sagrada... Na tua rua partilhada... Vestindo... uma roupa branca e leve e crua...
De quem jornais se cobre sorrindo... É esse o teu destino... Dás-lhes tudo o que precisam...
Póquer esse que não jogas... Pois há outros piores... E ficas nu... Tratas os loucos por tu...
Do manicómio que bem conheces... Desses outros que engrandeces... os outros é que o são
Casino esse de ilusão, no qual se joga a roleta da vida... mas eles não sabem...
Luxuoso… o cemitério de morte ordinária, onde se escondem Pois não conhecem a verdade,
Irado de tanta injustiça... tu que negaste a preguiça dos outros que julgam-se sãos,
Quando afinal são insanos, julgando os outros de inumanos... mas loucos são...
A rua é o teu descanso nessa loucura desejada onde os outros Julgando os outros pelo aspecto
sorte são... negam-te o alimento... recusando-se a olhar... sem ver o melhor da verdade...
Sorte     que te lembra com saudade do olhar... Os outros... Julgam-se melhores que todos
Te renegam impiedosos... com os seus cornos inchados... por se acharem superiores...
Bate à porta a morte dura... tu que vives na loucura mas esqueces... E tu olha-os perdoando,
À sorte tu vais desejando a morte todos os dias... curando-os também das dores...
Porta     do inferno abrindo... tu que vais por eles rezando... Perdoando suas faltas,
Rendido à compaixão e ao amor... Pelo pecado... pelas dores, pelas quais foste crucificado...
Ao inferno na terra abandonado, tu que foste mal-amado... Tu que és o exemplo dado
Azazel… foi-te tentando... nessa necessidade sonhada... de sofrimento e perdão...
Tu que o foste negando... por saberes que a riqueza é ilusão... Nunca deixaste faltar o pão,
Que alimentou os outros, com a tua carne arrancada... a quem tinha fome de ti...
Assistes dessa tribuna que é a calçada da rua nesse circo infernal... Deste peixe e deste vinho,
A esses outros pedintes... a quem te julgavam de dia... a quem te ouvia com carinho...
Espectáculos de infortúnio, aos outros que te maltratam... Deste Fé e deste Esperança,
Debutantes da lembrança aos quais marcas-te com saudade... a quem te procurou na verdade...
Numa prece de Fé... desses teus companheiros de amargura... E desse encontro irmãos fizeste,
Orgia de sentimentos provastes daqueles por quem sentes saudade a quem ensinaste a verdade,
De momentos de aflição... choras-te na solidão... dos dias que passam...
Estímulos de restos passados... nesses momentos salgados... e doutros que hão-de vir...
Provocantes, desgraçados, pobres em figura e pão, restos de gente... Dias de glória e perdão,
Que bebes da boca dos outros... que lhes devolves no altar... para todos os que quiserem...
Bebes a tragos sôfregos a miséria que paira no ar... Mas para outros julgamento,
Whisky é o seu veneno... que bebem em tragos fatais... de faltas e pecados mortais,
De vinho se embebedam, bebendo da boca da morte fragmentos... que lhes causarão sofrimento,
Vinte vezes ao dia... Em memórias perdidas tais... em memória de seus pais...
Anos esses que passam prenhes de sofrimento... Para esses ainda à esperança...
E sonhas com esses momentos desejados... Depois de justiça ser feita...
Vertes neles os teus pecados, deitando o sal nas feridas... Chegas tu qual São Francisco
Depois de julgado... carregas a tua cruz... e abres as tuas feridas... que apelas aos Juízes...
Águas são a tua virtude... e gritas... para que te perdoem... Para que perdoem os impuros
Em soluços de choro e arrependimento... apelando pelos que não tem lugar no céu...
Louças finas a perdição... de nada valem agora... Cobertos de riquezas celestes,
Finas     esperanças de outrora... Agora só a expiação dos pecados... ou honras e luz pela verdade...
De uma vida de Fé... Pelos outros tu pediste... Pois esses só conhecem o pecado,
Porcelana de vaidade e sofrimento, de mentira e ilusão... só avareza e crueldade...
E no final condenação... Esses os loucos... viveram negando Deus... Viveram a vida em vaidade,
Nunca alimentaram os seus irmãos... viveram toda a vida em luxúria, Ira e gula...
Nunca quiseram saber... os outros fizeram por esquecer... Viveram uma vida de loucura,
Nunca perdoavam a nobreza, nobreza de sentimentos, gritando por mais... agindo como animais...
Ajudas eles as negavam... cheios de vaidade e mentira... Mas para todos há perdão...
Os outros que se atrasaram a descobrir a luz...  Uns chegam à verdade mais cedo,
Outros carregam mais tempo a sua cruz... outros são os últimos a chegar...
Que se julgam sábios e doutos... que julgam pelo infortúnio... Partem em primeiro com medo,
Te negam em absoluto... guardam no caixão a riqueza... com medo de não voltar...
Pedem ao diabo a nobreza... negam a Deus adorar... Mas O perdão tu dás a todos,
Tu que és amor e és vida... Tu que és esperança e bebida... mesmo que tenhas de morrer,
Que nessa hora abençoada... voltas para depois nascer... numa cruz nu escorrendo sangue,
Não conheces raiva, nem ódio... dás-lhes esse mesmo sangue que deste aos outros a beber...
Conheces a Deus e bem sabes tu, abres assim o teu peito, E desse santo graal escorre a vida...
A mesma que te foi negada... dás aos outros esse oiro da Vida eterna prometida,
com que julgas esse mundo, que te negou guarida... E que ofereces numa taça,
Cuja virtude é em graça, em sangue... que te escorre das veias... quando nada mais tens para dar
Alma pura e transparente... que transpiras pelos poros... Dás o teu corpo santo e puro,
Não lhes queres tapar os olhos... e rezas assim todas as vezes aos Domingos no altar...
Conhece a sorte e revezes, de quem nada mais tem para dar... E nessa missa Dominical,
Pureza assim é celebrada, nessa casa sagrada... na qual é dita a verdade,
Que te escorre pelas feridas... por esse chicote de anzóis provocadas... para quem quiser ouvir...
Te desfazes em alimento... e desse santo corpo prometendo... Alimentas a pobreza,
Perdeste a fé, sentes-te abandonado... nessa cruz em sangue e suado... alimentas a esperança,
Nos recantos da tua alma... na companhia de pecadores... matas a fome de Fé...
Labirintos de palavras tu percorreste e te erguestes no fim... Tu que também és homem e escutas
Da boca dos outros a verdade, bebes das bocas feridas... o sofrimento dos outros...
Riqueza… é para os loucos... que nas suas almas atormentadas dizem: - Faz como te digo aqui
Que fingem chorar por ti... e pedem... para que te afundes... Não julgues os outros de loucos...
Esqueces-te do bem que fizeste... por esses prantos chorados... O sofrimento acordado
O outro que não quiseste... Deixa-o agora sozinho... O outro... de lembranças e traumas antigos,
Amor que partilhaste com a sorte... na tua hora de morte... que provoca gritos de dor...
Tu que és fonte de água pura que se espelha Em expressões de sem-abrigo,
Que são os teus cães irmãos... que alimentas na Fé... que podes encontrar na rua,
... estás tu agora... chorando desenfreado... dormindo em cartões improvisados,
Causas de morte naturais... são esses os teus ais que choras... e outros pedintes da rua,
Dor que te dão a beber... choram pela cidade nua em que vivem em aflição,
Com medo de te perder para esse mundo cão... de terem ficado sem trabalho,
A custa das tuas migalhas, que lhes davas pela Fé... nesses momentos de aflição...
Tua companheira é a morte... para Os que não pedem então,
Mania de não pedirem... a quem passa a vida a roubar... são muitas vezes quem mais precisa,
De amor que tiveres para dar... São assim águas passadas... são pobrezas envergonhadas,
Seres esses de muita Fé... de dores abençoadas... que não são apregoadas,
Superiormente abençoadas... Num clamor de necessidade... mas que sofrimento causam,
Que matam e dilaceram por dentro... que de estômago vazio... pelo sustento faltar...
Não tem vergonha e comem esses restos no altar... São pobres os que ajudas,
Dás tudo aquilo que tens e rezas aos pés de Cristo... por despertarem compaixão...
As chagas sagradas que assim abençoadas dessas vidas desgraçadas Ofereces-lhes assim o pão
Mão desse Santo homem, que te estende o alimento para os que precisam para viver...
A quem o amor é sofrimento de estômago cheio de vento... Esses que nada tem para comer,
Apertar as mãos no ventre... cheio de restos de nada... a não ser Fé e mais nada...
A causa do sofrimento... Pois essa Fé alimenta os desgraçados... Passas por eles todos os dias,
Quem come ventos abençoados... E nesses momentos pedindo... às vezes olhas outras não
Te dão migalhas jogadas nessas pedras atiradas espalhas tu no chão mas não fazes por maldade
Pede assim àquele que passa... nessas ruas de virtudes... Pois nada mais tens para dar,
A não ser fome de Fé e virtude a quem de ti te desejar... a não ser ensinamentos de verdade
Saudação... tu não lhes negas... tu que iluminas a rua por a verdade que alimenta…
Tu... brilhas no escuro como uma estrela qualquer... o alimento que ofereces...
Que nessas ruas esqueces, é corpo de homem e mulher... Nunca pedindo nada em troca,
Não pedes mas tua mão estendes... comendo os restos dos outros... e escutas as suas preces,
Olhas para o chão e nunca fixas os outros... Pois o teu olhar cega... o que eles rezam chorando...
O outro tu vais afastando e ergues a tua cabeça ao vento... Às vezes escutas desanimado,
Outro que como tu vai comendo... os restos ao chão jogados com tamanho sofrimento...
Como tu esses cães vivem, sem ter também o que comer... Tu que vives esses momentos,
Um cão homem te tornaste... sentindo esses espinhos na nuca... sentindo como se estivesses lá...
Irmão teu crucificado no altar abençoado nessa doce celebração, Dás-lhes a esperança e o alento,
Que te consome por dentro, que te destrói por compaixão... essa que eles haviam perdido,
Quando morreste acompanhado, pelos ladrões do pecado... nesses momentos de aflição,
Passa a cruz assim carregada, por esses ombros suada... nos quais procuram na oração,
Fome de Fé e de luta por uma vida melhor, pedindo a Deus aquilo que lhes foi negado...
Te choraram no pecado, dessa comida jogada... Alimento para o corpo e saúde,
Suplica que não termina, pedem para que os livres dos perigos dos demónios,
Humildemente suplicam... nessas horas que não passam... longe de invejas alheias,
Na rua, nas pedras soltas da calçada, onde enterras a tua cara... e perto do coração,
Rua... essa onde tu moras, onde estás sempre presente... filho de Deus Santo e omnipresente…
Tu... que rezas ao Senhor agora, que escute as tuas preces... ele que escuta a todos atentamente,
Que chora por ti vagabundo, e pelos outros filhos do mundo... chorando pelo coração...
Vês como ele sangra, sentes o seu calor na pele Tu para quem o sol é tormenta Por todos ele vela,
A tua fauce lívida e muda, sem expressão visível grita com ele... sofrendo pelo homem que chora
Verdade que se veste de urros e agonias, são assim todos os dias, passando fome de verdade,
Nua… a tua carne que escorre, sangue e água salgada... verdade que não ignora...
E nessa rua nada, um beco adormecido, no qual ecoa o teu grito Nos outros que por ele passam,
Crua… é essa verdade, que te custa a engolir, são as pérolas de Cristo e quase sempre o negam…
E falam os outros de amor, de compaixão que não conheces… Tu falas com toda a gente,
Desvias os gritos dos outros, que com gravatas mundanas, seja ele rico ou pobre…
O teu pescoço apertam sufocando-te lentamente nas pedras que te despertam A todos amas igual
Olhar o mundo de alto, nesse teu grito faminto, no qual afirmas a alma… A todos escutas sereno…
Torcendo o teu mundo medonho em que o alimento é corpo e A todos alimentas e sacias,
O teu perfume fedorento, deixa um amargo na boca, e dás a todos os que de ti têm sede…
Nariz da virtude tapado… para não cheirarem o podre com que A todos matas a fome,
Voltando a tua carne do avesso… para não apodreceres por dentro… de esperança e verdade,
A tua carne vais comendo… Tu que és um Rei na rua… Rei de justiça e igualdade…
Cara suja a tua… a qual lavas com verdade… O que faz mexer o mundo,
Para além da podridão, é o vómito do pedinte, que se espalhou no chão não é somente a avareza,
O motor da economia. O mundo é mais limpeza, quando lavas a pobreza É também solidariedade,
Lado a lado com o arrependimento e com a compaixão para com aquele que não come,
E todos os dias dorme numa caixa de cartão por não ter o que comer…
Que será o seu caixão… sepultado na calçada… sua vista suturada… E pelo outro sem trabalho,
Traças o destino num retalho, dessa manta rota e crua… pois sabes que não lhe dão que fazer…
Assim morre todos os dias, para no outro renascer… Assim se passam os dias,
O mais longo do ano, esses verões de calor… nos quais são depositadas as esperanças,
Teu destino está escrito em letras gordas com teu sangue… de outros melhores e melhores dias…
Fado esse que te consome… apertas esse doce com ganas… São assim como as crianças…
Vivendo esses miminhos, de açúcar atormentados… Mas tu homem que sofres,
Em desespero de causa… aprende também tu uma lição…
Faustas são as riquezas… não alimentes pobrezas… Agarra na cana e pesca,
Ilusões são o teu peixe… Procura o teu mestre e escuta… se tiveres quem te ensinar…
De modo a que com ele aprendas… aprendas a te saciar… Aprende a matar a fome,
Possuir tudo sem trabalho é ser pobre na riqueza… aprende primeiro a pescar…
Mil formas de eliminar a pobreza… Para de amor te saciares…
E de carinho te contentares… Que venha por um fio de pesca… Não esperes pelo alimento,
Mais um peixe e depois outro… com que alimentas a tua Fé… como fazem muitos outros…
Mil outros morreram de Pé… Como outros tantos mil… Oferece o teu saber,
Milhões irás alimentar… outros tantos apodrecer… Dás então o teu amor… a quem dele precisar…
Que mais poderás tu dar? Se não ofício a quem precisa… O mundo nasceu pelo trabalho…
Guardas no fundo os restos… Que depois serão para ti… Foi essa a lição de Deus
Gananciosamente aprendida… Pelo teu Pai Adão… que dois expulsou do paraíso
E frutos tiveram de cultivar… Abel e Caim os seus filhos… ensinando-lhes uma grande lição…
Aos que cultivam: a terra; aos que apascentam: o gado, Aprende homem pelo sofrimento,
Outros campos serão o teu fado… Trabalha e come os frutos… e não te julgues abandonado…
Farrapos de homens como tu… que te acham desgraçado… Pois para te salvar do inferno…
De outros anjos da guarda… Deus velará por ti… o Senhor te enviará ajuda…
Gente que não conheces, mas que pela Fé tu esqueces… Em momento oportuno,
Atiras-lhes os teus restos de nada… essas migalhas malditas… e também o seu filho morrerá…
À rua tu os abandonarás… negando-lhes também o alimento… Por todos esses desgraçados,
Cara a cara com o vento, que sopra e os arrefece… Eles que se vendem esfomeados,
Migalhas comendo, fedendo a podre… enterrados na calçada… comendo muitas vezes o lixo
De restos e restos de nada… Desse lixo luxuoso… desses sobejos que deitas fora,
Restos de nada que menos do que merda são… os restos de nada que sobram
De estilhaços do coração… Que rebentam como bombas… comem eles avidamente agora…
Nada      lhes sobra no fim a não ser a fome dura… Representando neste circo mundano,
Que dias insanos de loucura… Mundo que é Rico e que é divertimento para uns,
Eles que comem no prato… e sofrimento para outros,
Comem a merda dos outros que lhes sabe sempre a pouco… Carregarás também tu a tua cruz…
Avidamente comendo, na rua cagando, fedendo… Mas no final serás luz… Morrendo…
Agora… Na cruz…                                                                                                                                                        

                Miguel Silvestre

Valinhos - Alte 18/09/2010

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